OPINIÃO NPN | Já passou da hora da indústria da beleza parar de subestimar o poder e as necessidades da população negra no Brasil
- Nossa Pele Negra
- 7 de jul.
- 2 min de leitura

O debate impulsionado por especialistas como Tomi Talabi, fundadora do The Black Beauty Club, traz à tona uma questão estrutural que limita o crescimento de empreendedores negros no setor de beleza: o enquadramento equivocado de suas marcas como "nicho". Ao rotular essas empresas dessa forma, a indústria impõe um "teto de vidro" invisível que prejudica a percepção de sua relevância e escala.
Talabi argumenta que essa categorização é uma armadilha, pois, enquanto marcas fundadas por brancos são frequentemente tratadas como "universais" — mesmo quando falham em atender todos os tons ou texturas —, as marcas negras são reduzidas a um segmento limitado, o que afasta investidores que acreditam que esses produtos possuem um mercado restrito demais para escalar.
No entanto, essa percepção ignora uma realidade técnica fundamental: a inovação. Produtos desenvolvidos para atender às necessidades específicas da população negra, como protetores solares que eliminam o "white cast" ou bases com subtons precisos, são, em sua essência, produtos de performance superior. Quando uma marca negra resolve um problema que a indústria tradicional ignorou por décadas, ela cria uma solução que beneficia qualquer consumidor. Portanto, o que o mercado chama de "nicho" é, na verdade, um laboratório de alta tecnologia. A excelência em hidratação, a precisão colorimétrica e a resistência a climas adversos desenvolvidas por essas empresas estão definindo novos padrões de qualidade para todo o setor.
Além disso, o sucesso dessas marcas enfrenta o desafio do peso simbólico. O fracasso de uma empresa fundada por negros é frequentemente utilizado para validar o preconceito de que tais marcas não escalam, ignorando desigualdades estruturais, como a falta de acesso a capital de risco, redes de distribuição e mentorias de alto nível. Para Talabi, é urgente que o mercado abandone a abordagem performativa, que busca apenas cumprir cotas de diversidade, e adote uma visão de mercado baseada na autoridade técnica.
Ao transitar da retórica da representatividade para a da excelência técnica e estratégica, o setor de beleza pode finalmente romper com barreiras históricas, permitindo que a inovação gerada na periferia da indústria seja celebrada e adotada pelo mercado global de consumo.
Gleidistone Silva, Diretor de conteúdo e Editor-chefe do Nossa Pele Negra.




Comentários