OPINIÃO NPN | Num país de maioria negra, por que existem tão poucas linhas e produtos desenvolvidos exclusivamente para essa população? A resposta é: falta de vontade!
- Nossa Pele Negra
- 10 de jun.
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Na última semana, tive a honra de participar do painel de debate “Diversidade Étnica na Beleza: Consumo Brasileiro e a Adaptação Cultural das Tendências para o Brasil”, durante o 38º Congresso Brasileiro de Cosmetologia. Mediado por Raoni Oriki, da Orolab, e com as participações das excelentes Ana Carla Carneiro e Carolina Campos, do Estúdio Nina, fomos provocados por uma pergunta que nos fez refletir: por que o Brasil, um país onde cerca de 56% da população se autodeclara negra, ainda engatinha quando o assunto é criar e desenvolver linhas específicas para pele negra? Em resposta a outro questionamento, Carolina trouxe três palavras que também funcionam para responder ao título deste artigo: falta de vontade.
O Brasil é um país cuja identidade, cultura e estrutura demográfica são profundamente marcadas pela negritude. No entanto, quando entramos em uma farmácia ou percorremos os corredores de grandes lojas de cosméticos, essa realidade não se reflete nas prateleiras. A oferta de produtos formulados especificamente para atender às necessidades fisiológicas e estéticas da pele negra ainda é escassa, revelando um descompasso alarmante entre a composição da nossa população e o mercado de beleza nacional.
Lançamentos recentes, como NIVEA Beleza Radiante (2022) e Tododia Jambo Rosa e Flor de Caju, da Natura (2025), mostram como estamos em um processo lento e tímido no desenvolvimento de linhas voltadas para suprir as necessidades da pele da população negra no Brasil.
Se olharmos para o mercado americano, percebemos o abismo que nos separa de uma representação que transcende o discurso e vira prática de mercado. Nos Estados Unidos, o setor de beleza voltado para a pele rica em melanina é multibilionário e consolidado. Marcas como Black Girl Sunscreen tornaram-se pioneiras ao oferecer proteção solar hidratante que respeita a pele retinta, eliminando o indesejado resíduo esbranquiçado de fórmulas tradicionais. A revolução iniciada pela Fenty Beauty, com suas mais de 50 tonalidades de base, provou que atender a todos os subtons não é um favor, mas uma obrigação de mercado. Além disso, dermatologistas e celebridades têm impulsionado esse ecossistema com linhas focadas em cuidados diários, como a Loved01 e a Kinlò.
Nos EUA, a facilidade de encontrar esses produtos em grandes redes de drogarias como CVS e Walgreens, ou em lojas especializadas como a Ulta Beauty e Sephora, torna a inclusão algo cotidiano, não uma exceção.
Contudo, os dados americanos revelam um paradoxo: mesmo lá, onde a oferta é vastamente superior à brasileira, as marcas voltadas para a população negra detêm apenas 2,5% do marketshare total em receita. Esse número é gritante quando comparado ao poder de consumo desse público, que responde por 11,1% de todo o investimento em beleza no país, movimentando cerca de US$ 6,6 bilhões anuais. A consultoria McKinsey & Company aponta que fechar essa lacuna representa uma oportunidade financeira não aproveitada de US$ 2,6 bilhões.
Se o mercado global de produtos voltados para peles escuras cresce a uma taxa anual composta (CAGR) de 8,5% e movimenta bilhões, por que o Brasil, com uma população negra consideravelmente maior que a americana, ainda trata a pele rica em melanina como um nicho secundário ou, pior, como um campo de testes sem o devido investimento em pesquisa e desenvolvimento? Não existe outra resposta a não ser: falta de vontade.
A ausência de produtos específicos como protetores, hidratantes e tratamentos dermatológicos formulados para as particularidades da pele negra (como a propensão a hiperpigmentação e a necessidade de hidratações específicas) — não é apenas uma falha de marketing. É, fundamentalmente, uma forma de exclusão. Quando a indústria ignora a pele negra, ela diz, silenciosamente, que as necessidades, a saúde e o bem-estar desse corpo não são prioridade.
Refletir sobre isso é urgente. Precisamos questionar por que as empresas brasileiras ainda operam sob uma lógica de "universalidade" que, na prática, é excludente. O mercado de beleza precisa deixar de enxergar a pele negra como uma tendência passageira e passar a tratá-la como o que ela é: uma vasta, potente e negligenciada fatia da sociedade brasileira que exige, e merece, qualidade, inovação e respeito nas prateleiras.
Gleidistone Silva, Diretor de conteúdo e Editor-chefe do Nossa Pele Negra.



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